Sunday 15 de January de 2012, 03:08
Posted in: Personagens, Textos

Mrs. Andrews levantou-se de súbito ao ver, através da janela da sala, o vulto familiar que descia o morro a cavalo. Deixou de lado a costura da qual se utilizava para manter-se desperta e correu para o vestíbulo ante a aproximação débil do cavaleiro que, tentando impedir que a ventania da tempestade levasse sua cartola de feltro, tinha disponível apenas uma das mãos para guiar sua montaria.
Enquanto chamava pelos criados – um rapaz para levar o cavalo ao estábulo e a ajudante da cozinha para aquecer a refeição – a velha dama fez rugir pela casa as saias de tafetá preto. No que conseguira acordar não apenas os criados dos quais necessitava, como também todo o resto da casa, abriu-se a porta e ela adiantou-se para a figura que atravessara a soleira e empoçava o tapete da entrada.
- Oh, meu filho! Quantas vezes te digo que deverias comprar uma carruagem? – Disse ela em tom de pena.
À meia luz de uma solitária lâmpada de parede alimentada por óleo mineral, os lábios de Dr. Andrews sorriram sob o bigode castanho bem-aparado. – Quase todas as noites, mãe. – retrucou ele, beijando o rosto contrariado da senhora – Mas hei de atentar a este assunto, logo, se isso a fará feliz.
- Decerto que vai, Henry, se por “feliz” queres dizer que não irei mais me preocupar com a tua saúde toda vez que é exigido de ti que saias de casa neste tempo horroroso, sim, de fato ficarei feliz. Agora venha, senta-te ao fogo e tira essas botas. Esquenta-te um pouco, que Mary foi buscar a ceia.
Recém chegado à casa dos trinta anos, Henry Andrews era o único médico praticante em Templeton, e seus serviços eram constantemente requisitados nas áreas vizinhas. Não eram raras as vezes em que, logo após ter-se deixado adormecer ao lado da esposa, a mãe o acordava trazendo o bilhete de um paciente; ou, enquanto nevava ou chovia, um sofredor das doenças comuns do inverno o fazia sair do conforto de sua casa para enfrentar meia hora de trajeto a cavalo.
Hoje, por exemplo, Dr. Andrews havia se reservado ao silêncio de seu escritório para alguns minutos de tranqüilidade, quando, mal tendo descansado o corpo em sua poltrona e apoiado os pés descalços no tamborete, ouviu os passos rápidos da mãe subindo os degraus. Ela entregou-lhe um bilhete solicitando atendimento em uma das casas de campo na área externa do vilarejo. A casa indicada encontrava-se vazia desde que Dr. Andrews começara sua prática em Templeton, e havia sido vendida nos últimos meses. Não era de seu conhecimento, no entanto, que ela tivesse sido ocupada recentemente. O nome que encerrava o bilhete lhe era igualmente estranho: Mr. Daniel Dixon.
- Veja, mãe. É de Greenham Place. – Havia comentado o médico. – Eis que nossos novos vizinhos fazem sua primeira aparição. Flora ficará fora de si com a novidade. – e rira gostosamente.
Flora, conhecida como “a jovem Mrs. Andrews”, era uma criatura doce, de saúde delicada e rotina ociosa. Pouco fazia o dia todo além de pintar aquarelas e bordar almofadas. Não sendo de sua natureza organizar o lar e tomar decisões, a boa vontade que possuía nos primeiros anos de casamento para aprender e ajudar o marido havia sido sobrepujada pela presença dominante e expansiva da “velha Mrs. Andrews”, que declarou sua a direção daquele lar. Por isso, há muito Flora desistira de se sobressair e recolhera-se aos trabalhos manuais, vestidos bonitos, penteados da moda e, nos últimos seis anos, seu filho, Ernest. Estas eram as razões pelas quais, apesar de sua curiosidade quanto aos novos moradores, não mais procurava manter-se acordada à espera do marido, e ficaria perfeitamente satisfeita em saber das novidades no dia seguinte.
Já a velha Mrs. Andrews era a sentinela de Maybury Cottage. Viúva desde muito cedo e mãe zelosa desde sempre, trazia em si, quando tratava da administração da casa do filho, a energia da governanta que fora em sua juventude.
- Ponha-te confortável, meu filho. Onde está Mary? – Novamente, fez-se ouvir o tafetá da saia desta senhora, que apressou-se para a cozinha, impaciente com a demora da criada recém-contratada. E a pobre Mary, que queimava os dedos no fogão ante a pressa e o nervosismo de seu primeiro emprego, “e justo em casa de médico!”, como pensava ela, temia a fúria da matrona.






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Thursday 15 de December de 2011, 10:38
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Sense & Sensibility (2008)

Venho de uma soturna linhagem de donos de coisas; donos de coisas cinzentas e mórbidas, como tudo o que é de vanguarda nestes tempos. Meu bisavô, por exemplo, era dono de uma mina de carvão; meu avô, alavancado pelos proventos de seu pai, ingressou nos investimentos em estradas de ferro. Meu pai, por sua vez, tentou a sorte em uma rede de fábricas e especulações financeiras.

Estranho que eu os veja em minha mente como tendo o meu rosto, minhas roupas, meus trejeitos… Eu, que contemplava ser-lhes tão distinto. Têm estas minhas feições romanas, a mesma pele mediterrânea, as mãos brutas. Vestem as mesmas casacas escuras, as camisas engomadas, as discretas abotoaduras foscas. Olham-me do passado com estes mesmos olhos verdes, mas julgo haver nos meus, em uma forma pouco usual de vaidade, certo brilho que nos deles era ausente.

Tenho deles mais do que teria imaginado à época em que minha idade era pouca e meu rancor era muito. Trago deles, inclusive, o nome de batismo: John – logo que vê que originalidade não é atributo de família. John é um nome bastante ordinário; acredito que haja dois Johns em cada lar londrino – talvez o triplo disso na parte leste. Meu filho terá certamente um nome excêntrico.

Sou, também, um dono de coisas. Meus investimentos são uma forma lucrativa de afronta e despeito para com minhas origens, e hoje se resumem a uma frota de navios e o comércio com a Índia. Passo grande parte do ano no litoral, sentindo o cheiro salgado da brisa marítima, ouvindo o rugir das pedras da praia sob a fúria do repuxo… Talvez os que me vêem em frente ao mar, posto na austera posição marcial que me é comum, jamais sejam capazes de acreditar no quanto aprecio esta vastidão. O som das ondas me é muito mais agradável do que o burburinho das recepções da capital.

A verdade é que sou um homem de negócios, e não um ser social. Aborrecem-me os rodeios, as formalidades, as meias-palavras. Como um homem de negócios, não sei ser outra coisa se não franco. Talvez por isso a alta-sociedade não me receba tão bem quanto a alta-burguesia o faz.

Meu avô costumava dizer que “há, neste mundo, apenas dois tipos de dinheiro: o dinheiro velho e o dinheiro novo”. O dinheiro que corre na família Rowe é dinheiro novo, dinheiro carregado por progresso, e não há qualquer desonra nisso. Deve-se dizer, no entanto, que homens de dinheiro novo e homens de dinheiro velho não se entendem muito bem.

Permaneço no litoral, em uma casa na qual raramente recebo visitas. Uma casa da qual poucos sabem e sobre a qual não faço questão de falar a ninguém. Um homem precisa de seu refúgio, e este é o meu. Dela posso ouvir o som das ondas batendo contra as pedras; o sol tinge a sala de laranja. É preciso lembrar-se do cinza para apreciar a cor. Lembro-me bastante bem do cinza.

Tudo era cinza na cidadezinha industrial onde nasci. As chaminés das fábricas tossiam nuvens escuras de fumaça; tudo manchava, tudo mofava, tudo sofria. Na casa dos Rowe a única cor que se via advinha dos vestidos e do sorriso de minha mãe. Negava-se ao preto e à seriedade. Com suas saias carmim e as melodias ao piano, desafiava a tirania de meu pai. Escondia as marcas da opressão com seus xales e seu pó-de-arroz, mas eu sempre soube o que se passava. Ela teria apreciado isto – o mar.

O mesmo não pode ser dito minha falecida esposa. Incomodava-lhe tanto vento e tanta umidade; tanta areia encontrando caminhos para dentro de casa e acumulando-se nos cantos mais sórdidos e impossíveis de se limpar. Trouxe-a aqui apenas três vezes antes que reconhecesse a causa perdida. Passei a vir para o litoral sozinho e apenas quando era necessário que eu tratasse de negócios. Lavinia ficava em Londres, e ouso pensar que ela apreciava ser deixada um pouco em paz, preparando o enxoval para um filho que nunca chegamos a ter.

Que grande decepção devo ter sido para ela. Eu, que tinha interesses menos sólidos – mais simples e efêmeros – do que ela teria esperado de um homem de meu porte. Eu, que embora desejasse casar, protelasse constituir família enquanto ainda houvesse coisas no mundo as quais me interessassem ver. E que grande decepção foi ela para mim, por motivos diametralmente opostos.

No fim, fingimos nos amar. Segurava-lhe a mão fingindo, também, segurança, enquanto dizia-lhe que tudo ficaria bem. Uma doença estúpida a levou, roubando-lhe as possibilidades, o futuro. Pobre Lavinia. Que agradável criatura ela era. Teríamos sido bons amigos caso não tivéssemos concordado em cometer o mesmo erro, que pareceu-me tão certo à época.

Guardo o buquê de nosso casamento em uma redoma sobre o console da lareira desta casa, da qual ela tanto desgostava. Vendi, pois, a nossa. Abdiquei de residências fixas desde então, e hoje hospedo-me em hotéis quando não estou aqui. Vejo as rosas secas, que após quinze anos ainda trazem um pouco do antigo pigmento, tal qual a memória de Lavinia em minha mente.

Não sei se, quando me lembro dela, é de fato o seu rosto que vejo. Parece-me, às vezes, que lhe acrescentei certas características e suprimi-lhe alguns defeitos. Vejo seus olhos castanhos mais profundos do que deveriam ter realmente sido; vejo seus cabelos mais brilhantes do que é possível que fossem – acredito ter retornado àquela mesma situação de engano na qual me encontrava quando a pedi em casamento: projetando nela o que eu gostaria que ela fosse. Por vezes escapa-me quem Lavinia foi de fato, então leio as cartas que trocamos naqueles tempos e honro-lhe a memória com a devida precisão. É o mínimo que posso fazer.

Pesares à parte, enviuvar é um perfeito atestado de liberdade. Tendo ingressado no matrimônio – ainda que este tenha sido miseravelmente falho – rompe-se com este dogma edificador da vida privada. Um a menos. Por dez anos, alicercei-me nesta despreocupação. Por este dez anos, acreditei que jamais voltaria a contemplar casar-me outra vez. Quando o fiz, foi certamente um mau presságio.

Continuação do trecho publicado no blog Juntando Letras. Sei que meu fiel secto já deve ter lido, mas resolvi lançar uma série por aqui. “Slice of Life” será constituída de estudos de personagem em primeira pessoa. É, eu preciso me sentir escrevendo alguma coisa. :P






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Wednesday 12 de October de 2011, 02:39
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Aos cascos dos cavalos contra o paralelepípedo da rua, ao balançar da janela sujeita à fúria do vento, ao arranhar das argolas da cortina pelos trilhos, aos passos e aos cliques nervosos da porcelana; aos familiares primeiros sons da manhã seguiu-se o anúncio suave em sotaque escocês:
- Oito horas, senhorita Meg. – Havia dito a criada, sem permitir-se parar um instante sequer. Ajeitava com suas mãos pequeninas e avermelhadas a louça do café da manhã sobre a mesinha à janela.
A resposta demorou a vir. Meg reservara-se o direito de sorver o tênue instante entre o sonho e a realidade, entre o calor das cobertas e o mundo frio que sabia haver ao atravessar o umbral da porta. Em tácita compreensão, a criada não insistiu.
- Obrigada, Hettie. – Ouviu-se por fim. A moça sentou-se na cama observando o agourento céu de início de setembro do outro lado do vidro.
Em outros tempos, ela teria apreciado aquela manhã. Na época em que Hettie lhe trazia o café às 9:30 e que só lhe seria necessário descer no horário do almoço, teria se servido de um dos livros à cabeceira ou apenas apreciado a vista descoberta pelas cortinas. Naqueles tempos que corriam na casa dos Hamilton, no entanto, não eram possíveis as longas e preguiçosas manhãs de ócio.
- Mais alguém já está acordado? – Perguntou Meg, jogando as cobertas para o lado.
- Não, senhorita. Ninguém além do pequeno senhor Harold.
- E meu pai?
- Lord Harold está no escritório desde ontem de noite, senhorita. Tentei oferecer a ele algo para comer, mas ele não quis abrir a porta. – Hettie ainda não descansara. Alcançava-lhe os sapatos, separava-lhe a roupa, servia-lhe o chá e já se punha a arrumar a cama. Meg franziu o cenho em preocupação e a outra apressou-se em acrescentar – Mandarei Mary tentar. Desta vez com mais determinação.
- Sim, faça isso. Vá cuidar o pequeno Harold agora, sim?, até que eu fique pronta. No caminho, feche todas as janelas e peça para Mary acender a lareira da sala. Será um dia úmido, o de hoje.
Sentou-se à mesa, falhando em não se distrair com a visão da praça central de Portman Square, com suas copas verdes, bancos de ferro fundido e trilhas diagonais cortando a continuidade da grama escura. Buscou com os olhos o caderno de desenhos – via-se apenas parte dele, entreaberto sob a cama e deixando escapar alguns antigos esboços. Perguntou-se se haveria tempo para talvez… mas não, o relógio indicava o um quarto de hora que já se havia passado. Dispunha, portanto, de apenas outros dois quartos para alimentar-se, vestir-se e descer para distribuir instruções aos criados e assumir os cuidados do irmão mais novo. Permitiu-se apenas esticar-se por cima da mesa entreabrir a janela, deixando entrar a brisa úmida e o cheiro de musgo e chuva.

Senti a necessidade de postar esse trecho, já há algum tempo escondido entre rascunhos de cenas desconexas.
Todos têm de arcar com novas responsabilidades eventualmente. Às vezes somos obrigados a deixar de lado coisas das quais gostamos muito em prol de coisas mais necessárias para o momento. A vida prática me chama, e eu atendo ao seu chamado cheia de expectativas e disposição, mas é com tristeza que olharei de relance para o meu negligenciado “caderno de desenhos” sob a cama.






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