
Aos cascos dos cavalos contra o paralelepípedo da rua, ao balançar da janela sujeita à fúria do vento, ao arranhar das argolas da cortina pelos trilhos, aos passos e aos cliques nervosos da porcelana; aos familiares primeiros sons da manhã seguiu-se o anúncio suave em sotaque escocês:
- Oito horas, senhorita Meg. – Havia dito a criada, sem permitir-se parar um instante sequer. Ajeitava com suas mãos pequeninas e avermelhadas a louça do café da manhã sobre a mesinha à janela.
A resposta demorou a vir. Meg reservara-se o direito de sorver o tênue instante entre o sonho e a realidade, entre o calor das cobertas e o mundo frio que sabia haver ao atravessar o umbral da porta. Em tácita compreensão, a criada não insistiu.
- Obrigada, Hettie. – Ouviu-se por fim. A moça sentou-se na cama observando o agourento céu de início de setembro do outro lado do vidro.
Em outros tempos, ela teria apreciado aquela manhã. Na época em que Hettie lhe trazia o café às 9:30 e que só lhe seria necessário descer no horário do almoço, teria se servido de um dos livros à cabeceira ou apenas apreciado a vista descoberta pelas cortinas. Naqueles tempos que corriam na casa dos Hamilton, no entanto, não eram possíveis as longas e preguiçosas manhãs de ócio.
- Mais alguém já está acordado? – Perguntou Meg, jogando as cobertas para o lado.
- Não, senhorita. Ninguém além do pequeno senhor Harold.
- E meu pai?
- Lord Harold está no escritório desde ontem de noite, senhorita. Tentei oferecer a ele algo para comer, mas ele não quis abrir a porta. – Hettie ainda não descansara. Alcançava-lhe os sapatos, separava-lhe a roupa, servia-lhe o chá e já se punha a arrumar a cama. Meg franziu o cenho em preocupação e a outra apressou-se em acrescentar – Mandarei Mary tentar. Desta vez com mais determinação.
- Sim, faça isso. Vá cuidar o pequeno Harold agora, sim?, até que eu fique pronta. No caminho, feche todas as janelas e peça para Mary acender a lareira da sala. Será um dia úmido, o de hoje.
Sentou-se à mesa, falhando em não se distrair com a visão da praça central de Portman Square, com suas copas verdes, bancos de ferro fundido e trilhas diagonais cortando a continuidade da grama escura. Buscou com os olhos o caderno de desenhos – via-se apenas parte dele, entreaberto sob a cama e deixando escapar alguns antigos esboços. Perguntou-se se haveria tempo para talvez… mas não, o relógio indicava o um quarto de hora que já se havia passado. Dispunha, portanto, de apenas outros dois quartos para alimentar-se, vestir-se e descer para distribuir instruções aos criados e assumir os cuidados do irmão mais novo. Permitiu-se apenas esticar-se por cima da mesa entreabrir a janela, deixando entrar a brisa úmida e o cheiro de musgo e chuva.
Senti a necessidade de postar esse trecho, já há algum tempo escondido entre rascunhos de cenas desconexas.
Todos têm de arcar com novas responsabilidades eventualmente. Às vezes somos obrigados a deixar de lado coisas das quais gostamos muito em prol de coisas mais necessárias para o momento. A vida prática me chama, e eu atendo ao seu chamado cheia de expectativas e disposição, mas é com tristeza que olharei de relance para o meu negligenciado “caderno de desenhos” sob a cama.

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Jade Arbo, 18 anos, gaúcha de coração porto-alegrense. Criatura noturna, adaptada às madrugadas, livros à meia-luz, imaginação e um copo de café. Bixo Letras (UFPel), legender do Victorians, idealizadora do Writer’s Block. Curiosa, estrangeirista, circunspecta, (auto-)crítica. ♥ Era vitoriana, literatura oitocentista, BBC e produções de época. Pizza (sem talheres, faz favor), lasanha, pão-de-queijo, refri, café e Twinings. Violinos & cellos, Yann Tiersen, Emilie Autumn e trilhas sonoras. North & South, Emma, Bleak House e Battlestar Galactica.









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