Thursday 06 de October de 2011, 03:51
Posted in: Personagens, Textos

Eu costumava detestar as manhãs. Quando mais nova, me acreditava uma criatura da noite. O sol nascente não me trazia muito mais do que o aborrecimento de me lembrar que já devia ser hora de ir dormir. Hoje, no entanto, ele não mais punha fim à minha madrugada no meu quarto de menina, e sim anunciava o início de um dia promissor, como me pareciam ser todos os dias que iniciavam com manhãs como aquela.
Os cômodos eram tomados pela luminosidade alaranjada que as cortinas brancas ajudavam a difundir. Os raios de sol concediam certo calor em meio à brisa fria que ainda restava da madrugada. Pela janela aberta do quarto subia o familiar cheiro de café do estabelecimento abaixo, e as primeiras conversas matutinas na calçada faziam as vezes de despertador.
- Bom dia, Rosa! – Disse uma voz masculina e asmática.
- Bom dia. O de sempre, Hector?
Sim. Era sempre o de sempre por ali. Desde que me mudara para um apartamento no último dos três andares sobre o Imperatriz da Índia, há cerca de dois meses, eram sempre estes os meus despertares, eram sempre as mesmas vozes, o mesmo aroma, a mesma tonalidade, as mesmas pessoas.
Eu, nos meus 22 anos, ainda degustava minha recém-adquirida independência. Continuava um tanto deslumbrada com o fato de poder espalhar pela casa os diversos nichos que antes coexistiam no pequeno espaço do meu antigo quarto: os livros, a escrivaninha e o computador formavam agora um escritório; minhas guloseimas ficavam na cozinha, junto ao pouco de comida de verdade que eu guardava ali; o quarto eu usava apenas para dormir e para armazenar o guarda roupa, e não mais para me isolar do mundo – para isso servia a sala, afinal aqueles poucos, mas preciosos, metros quadrados do apartamento eram todos meus. Poucas das coisas que alcancei nos anos seguintes me trouxeram sensações equiparáveis a de ter um lugar amplo e multifacetado para me esconder do mundo quando necessário.
Mas meus cafés-da-manhã eram todos feitos no Imperatriz, bem como meus almoços – à época, freelancer como era, levava comigo meu notebook e fazia da mesa mais reservada meu local de trabalho. Rosa me cumprimentava com um sorriso de avó. Era a proprietária do café e locatária dos apartamentos acima. Por certo tempo me foi um mistério o porquê de ela ainda fazer aquele tipo de trabalho, em seus quase sessenta anos e recebendo o que lhe rendiam os inquilinos.
- Aqui está, Eve. – A garçonete anunciava para que a chegada do pedido, na minha distração, não me sobressaltasse.
- Obrigada, Sarah. – Eu respondia sem erguer os olhos.
Era sempre a mesma moça que me atendia: Cabelos negros de índia, pele amorenada e incríveis olhos verdes. Pressentia que qualquer dia destes seria a mulher de mechas amarelas a me atender, e eu a chamaria de Sarah.

Esta é Evelyn, personagem de um projeto alternativo ao do Writer’s Block. É uma das primeiras coisas que escrevo na atualidade, então está sendo bastante “refrescante”. Estou levando na diversão, por enquanto, como um refúgio da dificuldade que é tentar escrever um romance histórico.
Coisas boas têm me acontecido ultimamente, e nada melhor do que comemorar com um trecho aleatório escrito em meio a uma aula de Leitura de Produção Textual – pertinente, não? Esbarrei em uma sensação rara esses dias: a de estar no rumo certo; de ter certeza de estar estudando algo com o que eu realmente sentirei prazer em trabalhar. Sinto por aqueles que passam anos sem saber o que é esta segurança, e sou grata por ter feito as escolhas certas até aqui.











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