Thursday 15 de December de 2011, 10:38
Posted in: Textos

Sense & Sensibility (2008)

Venho de uma soturna linhagem de donos de coisas; donos de coisas cinzentas e mórbidas, como tudo o que é de vanguarda nestes tempos. Meu bisavô, por exemplo, era dono de uma mina de carvão; meu avô, alavancado pelos proventos de seu pai, ingressou nos investimentos em estradas de ferro. Meu pai, por sua vez, tentou a sorte em uma rede de fábricas e especulações financeiras.

Estranho que eu os veja em minha mente como tendo o meu rosto, minhas roupas, meus trejeitos… Eu, que contemplava ser-lhes tão distinto. Têm estas minhas feições romanas, a mesma pele mediterrânea, as mãos brutas. Vestem as mesmas casacas escuras, as camisas engomadas, as discretas abotoaduras foscas. Olham-me do passado com estes mesmos olhos verdes, mas julgo haver nos meus, em uma forma pouco usual de vaidade, certo brilho que nos deles era ausente.

Tenho deles mais do que teria imaginado à época em que minha idade era pouca e meu rancor era muito. Trago deles, inclusive, o nome de batismo: John – logo que vê que originalidade não é atributo de família. John é um nome bastante ordinário; acredito que haja dois Johns em cada lar londrino – talvez o triplo disso na parte leste. Meu filho terá certamente um nome excêntrico.

Sou, também, um dono de coisas. Meus investimentos são uma forma lucrativa de afronta e despeito para com minhas origens, e hoje se resumem a uma frota de navios e o comércio com a Índia. Passo grande parte do ano no litoral, sentindo o cheiro salgado da brisa marítima, ouvindo o rugir das pedras da praia sob a fúria do repuxo… Talvez os que me vêem em frente ao mar, posto na austera posição marcial que me é comum, jamais sejam capazes de acreditar no quanto aprecio esta vastidão. O som das ondas me é muito mais agradável do que o burburinho das recepções da capital.

A verdade é que sou um homem de negócios, e não um ser social. Aborrecem-me os rodeios, as formalidades, as meias-palavras. Como um homem de negócios, não sei ser outra coisa se não franco. Talvez por isso a alta-sociedade não me receba tão bem quanto a alta-burguesia o faz.

Meu avô costumava dizer que “há, neste mundo, apenas dois tipos de dinheiro: o dinheiro velho e o dinheiro novo”. O dinheiro que corre na família Rowe é dinheiro novo, dinheiro carregado por progresso, e não há qualquer desonra nisso. Deve-se dizer, no entanto, que homens de dinheiro novo e homens de dinheiro velho não se entendem muito bem.

Permaneço no litoral, em uma casa na qual raramente recebo visitas. Uma casa da qual poucos sabem e sobre a qual não faço questão de falar a ninguém. Um homem precisa de seu refúgio, e este é o meu. Dela posso ouvir o som das ondas batendo contra as pedras; o sol tinge a sala de laranja. É preciso lembrar-se do cinza para apreciar a cor. Lembro-me bastante bem do cinza.

Tudo era cinza na cidadezinha industrial onde nasci. As chaminés das fábricas tossiam nuvens escuras de fumaça; tudo manchava, tudo mofava, tudo sofria. Na casa dos Rowe a única cor que se via advinha dos vestidos e do sorriso de minha mãe. Negava-se ao preto e à seriedade. Com suas saias carmim e as melodias ao piano, desafiava a tirania de meu pai. Escondia as marcas da opressão com seus xales e seu pó-de-arroz, mas eu sempre soube o que se passava. Ela teria apreciado isto – o mar.

O mesmo não pode ser dito minha falecida esposa. Incomodava-lhe tanto vento e tanta umidade; tanta areia encontrando caminhos para dentro de casa e acumulando-se nos cantos mais sórdidos e impossíveis de se limpar. Trouxe-a aqui apenas três vezes antes que reconhecesse a causa perdida. Passei a vir para o litoral sozinho e apenas quando era necessário que eu tratasse de negócios. Lavinia ficava em Londres, e ouso pensar que ela apreciava ser deixada um pouco em paz, preparando o enxoval para um filho que nunca chegamos a ter.

Que grande decepção devo ter sido para ela. Eu, que tinha interesses menos sólidos – mais simples e efêmeros – do que ela teria esperado de um homem de meu porte. Eu, que embora desejasse casar, protelasse constituir família enquanto ainda houvesse coisas no mundo as quais me interessassem ver. E que grande decepção foi ela para mim, por motivos diametralmente opostos.

No fim, fingimos nos amar. Segurava-lhe a mão fingindo, também, segurança, enquanto dizia-lhe que tudo ficaria bem. Uma doença estúpida a levou, roubando-lhe as possibilidades, o futuro. Pobre Lavinia. Que agradável criatura ela era. Teríamos sido bons amigos caso não tivéssemos concordado em cometer o mesmo erro, que pareceu-me tão certo à época.

Guardo o buquê de nosso casamento em uma redoma sobre o console da lareira desta casa, da qual ela tanto desgostava. Vendi, pois, a nossa. Abdiquei de residências fixas desde então, e hoje hospedo-me em hotéis quando não estou aqui. Vejo as rosas secas, que após quinze anos ainda trazem um pouco do antigo pigmento, tal qual a memória de Lavinia em minha mente.

Não sei se, quando me lembro dela, é de fato o seu rosto que vejo. Parece-me, às vezes, que lhe acrescentei certas características e suprimi-lhe alguns defeitos. Vejo seus olhos castanhos mais profundos do que deveriam ter realmente sido; vejo seus cabelos mais brilhantes do que é possível que fossem – acredito ter retornado àquela mesma situação de engano na qual me encontrava quando a pedi em casamento: projetando nela o que eu gostaria que ela fosse. Por vezes escapa-me quem Lavinia foi de fato, então leio as cartas que trocamos naqueles tempos e honro-lhe a memória com a devida precisão. É o mínimo que posso fazer.

Pesares à parte, enviuvar é um perfeito atestado de liberdade. Tendo ingressado no matrimônio – ainda que este tenha sido miseravelmente falho – rompe-se com este dogma edificador da vida privada. Um a menos. Por dez anos, alicercei-me nesta despreocupação. Por este dez anos, acreditei que jamais voltaria a contemplar casar-me outra vez. Quando o fiz, foi certamente um mau presságio.

Continuação do trecho publicado no blog Juntando Letras. Sei que meu fiel secto já deve ter lido, mas resolvi lançar uma série por aqui. “Slice of Life” será constituída de estudos de personagem em primeira pessoa. É, eu preciso me sentir escrevendo alguma coisa. :P












2 Comentários em “Slice of Life I”


22-12-2011 - 10:46

Suas descrições são perfeitas, Jade. É incrível como você transporta o leitor para dentro da cabeça do personagem sem perder nada da descrição do cenário ou do que está “fora” do psicológico. Existe um quê de melancolia nesse texto que me atrai muito. Gosto ainda mais da sua escrita agora. :) Continue, mesmo!

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31-12-2011 - 00:28

tô pra te dizer q o Mr. Rowe é um dos personagens dos quais eu mais gosto. u.u

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