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Mrs. Andrews levantou-se de súbito ao ver, através da janela da sala, o vulto familiar que descia o morro a cavalo. Deixou de lado a costura da qual se utilizava para manter-se desperta e correu para o vestíbulo ante a aproximação débil do cavaleiro que, tentando impedir que a ventania da tempestade levasse sua cartola de feltro, tinha disponível apenas uma das mãos para guiar sua montaria.
Enquanto chamava pelos criados – um rapaz para levar o cavalo ao estábulo e a ajudante da cozinha para aquecer a refeição – a velha dama fez rugir pela casa as saias de tafetá preto. No que conseguira acordar não apenas os criados dos quais necessitava, como também todo o resto da casa, abriu-se a porta e ela adiantou-se para a figura que atravessara a soleira e empoçava o tapete da entrada.
- Oh, meu filho! Quantas vezes te digo que deverias comprar uma carruagem? – Disse ela em tom de pena.
À meia luz de uma solitária lâmpada de parede alimentada por óleo mineral, os lábios de Dr. Andrews sorriram sob o bigode castanho bem-aparado. – Quase todas as noites, mãe. – retrucou ele, beijando o rosto contrariado da senhora – Mas hei de atentar a este assunto, logo, se isso a fará feliz.
- Decerto que vai, Henry, se por “feliz” queres dizer que não irei mais me preocupar com a tua saúde toda vez que é exigido de ti que saias de casa neste tempo horroroso, sim, de fato ficarei feliz. Agora venha, senta-te ao fogo e tira essas botas. Esquenta-te um pouco, que Mary foi buscar a ceia.
Recém chegado à casa dos trinta anos, Henry Andrews era o único médico praticante em Templeton, e seus serviços eram constantemente requisitados nas áreas vizinhas. Não eram raras as vezes em que, logo após ter-se deixado adormecer ao lado da esposa, a mãe o acordava trazendo o bilhete de um paciente; ou, enquanto nevava ou chovia, um sofredor das doenças comuns do inverno o fazia sair do conforto de sua casa para enfrentar meia hora de trajeto a cavalo.
Hoje, por exemplo, Dr. Andrews havia se reservado ao silêncio de seu escritório para alguns minutos de tranqüilidade, quando, mal tendo descansado o corpo em sua poltrona e apoiado os pés descalços no tamborete, ouviu os passos rápidos da mãe subindo os degraus. Ela entregou-lhe um bilhete solicitando atendimento em uma das casas de campo na área externa do vilarejo. A casa indicada encontrava-se vazia desde que Dr. Andrews começara sua prática em Templeton, e havia sido vendida nos últimos meses. Não era de seu conhecimento, no entanto, que ela tivesse sido ocupada recentemente. O nome que encerrava o bilhete lhe era igualmente estranho: Mr. Daniel Dixon.
- Veja, mãe. É de Greenham Place. – Havia comentado o médico. – Eis que nossos novos vizinhos fazem sua primeira aparição. Flora ficará fora de si com a novidade. – e rira gostosamente.
Flora, conhecida como “a jovem Mrs. Andrews”, era uma criatura doce, de saúde delicada e rotina ociosa. Pouco fazia o dia todo além de pintar aquarelas e bordar almofadas. Não sendo de sua natureza organizar o lar e tomar decisões, a boa vontade que possuía nos primeiros anos de casamento para aprender e ajudar o marido havia sido sobrepujada pela presença dominante e expansiva da “velha Mrs. Andrews”, que declarou sua a direção daquele lar. Por isso, há muito Flora desistira de se sobressair e recolhera-se aos trabalhos manuais, vestidos bonitos, penteados da moda e, nos últimos seis anos, seu filho, Ernest. Estas eram as razões pelas quais, apesar de sua curiosidade quanto aos novos moradores, não mais procurava manter-se acordada à espera do marido, e ficaria perfeitamente satisfeita em saber das novidades no dia seguinte.
Já a velha Mrs. Andrews era a sentinela de Maybury Cottage. Viúva desde muito cedo e mãe zelosa desde sempre, trazia em si, quando tratava da administração da casa do filho, a energia da governanta que fora em sua juventude.
- Ponha-te confortável, meu filho. Onde está Mary? – Novamente, fez-se ouvir o tafetá da saia desta senhora, que apressou-se para a cozinha, impaciente com a demora da criada recém-contratada. E a pobre Mary, que queimava os dedos no fogão ante a pressa e o nervosismo de seu primeiro emprego, “e justo em casa de médico!”, como pensava ela, temia a fúria da matrona.

2 Comentários em “Madrugada em Maybury Cottage”
Li esse belo texto no trem para me distrair, pena enorme que durou muito pouco. Acho um grande feito esse universo que descobriu/criou, a cada trecho tu mostra que domina mesmo.
Jade Arbo, 18 anos, gaúcha de coração porto-alegrense. Criatura noturna, adaptada às madrugadas, livros à meia-luz, imaginação e um copo de café. Bixo Letras (UFPel), legender do Victorians, idealizadora do Writer’s Block. Curiosa, estrangeirista, circunspecta, (auto-)crítica. ♥ Era vitoriana, literatura oitocentista, BBC e produções de época. Pizza (sem talheres, faz favor), lasanha, pão-de-queijo, refri, café e Twinings. Violinos & cellos, Yann Tiersen, Emilie Autumn e trilhas sonoras. North & South, Emma, Bleak House e Battlestar Galactica.









Adoro a forma como você consegue reconstruir tão bem o passado, nunca vi um anacronismo ou qualquer coisa do tipo, e sei o quanto é difícil evitá-los!
Você me lembra alguns dos meus autores favoritos, mas deve ser porque é uma deles!