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	<description>We live in an age when unnecessary things are our only necessities.</description>
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		<title>Uma Vida Secreta</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Feb 2012 19:11:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jade Arbo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Talvez fosse porque via nela a graça que minha altura e minha silhueta larga jamais me permitiriam ter, que eu a orbitasse naquele período de isolamento. Talvez porque houvesse nela um potencial para a poesia, do qual apenas o mais harmônico dos rostos femininos é capaz de ter, que eu a observasse com tanto fascínio.
Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://fc03.deviantart.net/fs70/f/2012/011/6/9/cottage_by_lhoopes-d4m287w.jpg" alt="" width="477" height="358" /></p>
<blockquote><p>Talvez fosse porque via nela a graça que minha altura e minha silhueta larga jamais me permitiriam ter, que eu a orbitasse naquele período de isolamento. Talvez porque houvesse nela um potencial para a poesia, do qual apenas o mais harmônico dos rostos femininos é capaz de ter, que eu a observasse com tanto fascínio.<br />
Não era desejo o que eu sentia pela jovem Elgee. Ainda hoje não sei se consigo me fazer compreender enquanto tento dar um frasear bonito ao que não cabe às palavras explicar. Decerto que não era desejo. Há muito seu gênero não me causava outros sentimentos que não a simpatia e a condescendência; admiração, talvez, e em raros casos, mas jamais nada que se assemelhasse a desejo.<br />
Era uma ânsia de absorvê-la. De partilhar do aspecto de romance que havia em sua inquietação, de saber para que lugares sua mente ia quando seus olhos perdiam o foco, e de sentir novamente o prospecto de um futuro enquanto tudo na minha existência se resumia a um passado lamentável.<br />
Sentados na varanda, olhando o mar de Berneval, bebericando nosso chá da tarde de pés descalços, eu pintava seu retrato em minha mente: Seus cabelos ruivos presos em um penteado trançado, marcado pela usual desordem de fios de um fim de dia; as pequenas marcas de expressão que surgiam graduais em seus 26 anos; as mãos delicadas, o vestido de linho azul coberto por uma fina camada de organza; a pele do rosto salpicada por sardas e enfeitada por um dourado incomum às moças da sociedade, que se guardam do sol e não se guardam de todo o resto. Em seu caso, era apenas do sol que ela não se guardava.<br />
Anne Elgee inclinou a cabeça para trás.<br />
- Sente falta de casa, Sebastian?<br />
A palavra “casa” ecoou e vibrou nos meus ouvidos como um sino de catedral, e, no fundo, achei ser capaz de ouvir a voz exaltada dos meus filhos chamando meu nome. Eu larguei o pires e sorri.<br />
- Eu estou em casa, espero. Estou bastante contente com o meu quarto no sótão, e não há nada além de seu conteúdo que seja capaz de me fazer mais feliz.<br />
Mais tarde, no silêncio do meu quarto de sótão – que me parecia pequeno demais para me abrigar – eu escreveria sobre ela a Rob. Descreveria a forma doce com que me olhara, em tácita compreensão do sofrimento que representava as lembranças da vida antes do purgatório que era nossa pequena ilha. Diria a ele que é necessário ser um fugitivo para reconhecer outro.</p></blockquote>
<p>Salvando um projeto antigo e preparando-o para o NaNoWriMo deste ano. Sebastian, é bom te ter de volta, bro.</p>
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		<title>Madrugada em Maybury Cottage</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Jan 2012 05:08:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jade Arbo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Personagens]]></category>
		<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Mrs. Andrews levantou-se de súbito ao ver, através da janela da sala, o vulto familiar que descia o morro a cavalo. Deixou de lado a costura da qual se utilizava para manter-se desperta e correu para o vestíbulo ante a aproximação débil do cavaleiro que, tentando impedir que a ventania da tempestade levasse sua cartola [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://www.1st-art-gallery.com/thumbnail/105259/1/Sewing-By-A-Window-1915.jpg" alt="" width="280" height="360" /></p>
<blockquote><p>Mrs. Andrews levantou-se de súbito ao ver, através da janela da sala, o vulto familiar que descia o morro a cavalo. Deixou de lado a costura da qual se utilizava para manter-se desperta e correu para o vestíbulo ante a aproximação débil do cavaleiro que, tentando impedir que a ventania da tempestade levasse sua cartola de feltro, tinha disponível apenas uma das mãos para guiar sua montaria.<br />
Enquanto chamava pelos criados – um rapaz para levar o cavalo ao estábulo e a ajudante da cozinha para aquecer a refeição – a velha dama fez rugir pela casa as saias de tafetá preto. No que conseguira acordar não apenas os criados dos quais necessitava, como também todo o resto da casa, abriu-se a porta e ela adiantou-se para a figura que atravessara a soleira e empoçava o tapete da entrada.<br />
- Oh, meu filho! Quantas vezes te digo que deverias comprar uma carruagem? – Disse ela em tom de pena.<br />
À meia luz de uma solitária lâmpada de parede alimentada por óleo mineral, os lábios de Dr. Andrews sorriram sob o bigode castanho bem-aparado. – Quase todas as noites, mãe. – retrucou ele, beijando o rosto contrariado da senhora – Mas hei de atentar a este assunto, logo, se isso a fará feliz.<br />
- Decerto que vai, Henry, se por “feliz” queres dizer que não irei mais me preocupar com a tua saúde toda vez que é exigido de ti que saias de casa neste tempo horroroso, sim, de fato ficarei feliz. Agora venha, senta-te ao fogo e tira essas botas. Esquenta-te um pouco, que Mary foi buscar a ceia.<br />
Recém chegado à casa dos trinta anos, Henry Andrews era o único médico praticante em Templeton, e seus serviços eram constantemente requisitados nas áreas vizinhas. Não eram raras as vezes em que, logo após ter-se deixado adormecer ao lado da esposa, a mãe o acordava  trazendo o bilhete de um paciente; ou, enquanto nevava ou chovia, um sofredor das doenças comuns do inverno o fazia sair do conforto de sua casa para enfrentar meia hora de trajeto a cavalo.<br />
Hoje, por exemplo, Dr. Andrews havia se reservado ao silêncio de seu escritório para alguns minutos de tranqüilidade, quando, mal tendo descansado o corpo em sua poltrona e apoiado os pés descalços no tamborete, ouviu os passos rápidos da mãe subindo os degraus. Ela entregou-lhe um bilhete solicitando atendimento em uma das casas de campo na área externa do vilarejo. A casa indicada encontrava-se vazia desde que Dr. Andrews começara sua prática em Templeton, e havia sido vendida nos últimos meses. Não era de seu conhecimento, no entanto, que ela tivesse sido ocupada recentemente. O nome que encerrava o bilhete lhe era igualmente estranho: Mr. Daniel Dixon.<br />
- Veja, mãe. É de Greenham Place. – Havia comentado o médico. – Eis que nossos novos vizinhos fazem sua primeira aparição. Flora ficará fora de si com a novidade. – e rira gostosamente.<br />
Flora, conhecida como “a jovem Mrs. Andrews”, era uma criatura doce, de saúde delicada e rotina ociosa. Pouco fazia o dia todo além de pintar aquarelas e bordar almofadas. Não sendo de sua natureza organizar o lar e tomar decisões, a boa vontade que possuía nos primeiros anos de casamento para aprender e ajudar o marido havia sido sobrepujada pela presença dominante e expansiva da “velha Mrs. Andrews”, que declarou sua a direção daquele lar. Por isso, há muito Flora desistira de se sobressair e recolhera-se aos trabalhos manuais, vestidos bonitos, penteados da moda e, nos últimos seis anos, seu filho, Ernest. Estas eram as razões pelas quais, apesar de sua curiosidade quanto aos novos moradores, não mais procurava manter-se acordada à espera do marido, e ficaria perfeitamente satisfeita em saber das novidades no dia seguinte.<br />
Já a velha Mrs. Andrews era a sentinela de Maybury Cottage. Viúva desde muito cedo e mãe zelosa desde sempre, trazia em si, quando tratava da administração da casa do filho, a energia da governanta que fora em sua juventude.<br />
- Ponha-te confortável, meu filho. Onde está Mary? – Novamente, fez-se ouvir o tafetá da saia desta senhora, que apressou-se para a cozinha, impaciente com a demora da criada recém-contratada. E a pobre Mary, que queimava os dedos no fogão ante a pressa e o nervosismo de seu primeiro emprego, “e justo em casa de médico!”, como pensava ela, temia a fúria da matrona.</p></blockquote>
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		<title>Slice of Life I</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 12:38:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Jade Arbo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Textos]]></category>

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		<description><![CDATA[Venho de uma soturna linhagem de donos de coisas; donos de coisas cinzentas e mórbidas, como tudo o que é de vanguarda nestes tempos. Meu bisavô, por exemplo, era dono de uma mina de carvão; meu avô, alavancado pelos proventos de seu pai, ingressou nos investimentos em estradas de ferro. Meu pai, por sua vez, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><img class="aligncenter" src="http://images2.fanpop.com/images/photos/5100000/Sense-and-Sensibility-2008-sense-and-sensibility-5165996-1024-576.jpg" alt="Sense &amp; Sensibility (2008)" width="430" height="242" /></p>
<blockquote><p>Venho de uma soturna linhagem de donos de coisas; donos de coisas cinzentas e mórbidas, como tudo o que é de vanguarda nestes tempos. Meu bisavô, por exemplo, era dono de uma mina de carvão; meu avô, alavancado pelos proventos de seu pai, ingressou nos investimentos em estradas de ferro. Meu pai, por sua vez, tentou a sorte em uma rede de fábricas e especulações financeiras.</p>
<p>Estranho que eu os veja em minha mente como tendo o meu rosto, minhas roupas, meus trejeitos&#8230; Eu, que contemplava ser-lhes tão distinto. Têm estas minhas feições romanas, a mesma pele mediterrânea, as mãos brutas. Vestem as mesmas casacas escuras, as camisas engomadas, as discretas abotoaduras foscas. Olham-me do passado com estes mesmos olhos verdes, mas julgo haver nos meus, em uma forma pouco usual de vaidade, certo brilho que nos deles era ausente.</p>
<p>Tenho deles mais do que teria imaginado à época em que minha idade era pouca e meu rancor era muito. Trago deles, inclusive, o nome de batismo: John – logo que vê que originalidade não é atributo de família. John é um nome bastante ordinário; acredito que haja dois Johns em cada lar londrino – talvez o triplo disso na parte leste. Meu filho terá certamente um nome excêntrico.</p>
<p>Sou, também, um dono de coisas. Meus investimentos são uma forma lucrativa de afronta e despeito para com minhas origens, e hoje se resumem a uma frota de navios e o comércio com a Índia. Passo grande parte do ano no litoral, sentindo o cheiro salgado da brisa marítima, ouvindo o rugir das pedras da praia sob a fúria do repuxo&#8230; Talvez os que me vêem em frente ao mar, posto na austera posição marcial que me é comum, jamais sejam capazes de acreditar no quanto aprecio esta vastidão. O som das ondas me é muito mais agradável do que o burburinho das recepções da capital.</p>
<p>A verdade é que sou um homem de negócios, e não um ser social. Aborrecem-me os rodeios, as formalidades, as meias-palavras. Como um homem de negócios, não sei ser outra coisa se não franco. Talvez por isso a alta-sociedade não me receba tão bem quanto a alta-burguesia o faz.</p>
<p>Meu avô costumava dizer que “há, neste mundo, apenas dois tipos de dinheiro: o dinheiro velho e o dinheiro novo”. O dinheiro que corre na família Rowe é dinheiro novo, dinheiro carregado por progresso, e não há qualquer desonra nisso. Deve-se dizer, no entanto, que homens de dinheiro novo e homens de dinheiro velho não se entendem muito bem.</p>
<p>Permaneço no litoral, em uma casa na qual raramente recebo visitas. Uma casa da qual poucos sabem e sobre a qual não faço questão de falar a ninguém. Um homem precisa de seu refúgio, e este é o meu. Dela posso ouvir o som das ondas batendo contra as pedras; o sol tinge a sala de laranja. É preciso lembrar-se do cinza para apreciar a cor. Lembro-me bastante bem do cinza.</p>
<p>Tudo era cinza na cidadezinha industrial onde nasci. As chaminés das fábricas tossiam nuvens escuras de fumaça; tudo manchava, tudo mofava, tudo sofria. Na casa dos Rowe a única cor que se via advinha dos vestidos e do sorriso de minha mãe. Negava-se ao preto e à seriedade. Com suas saias carmim e as melodias ao piano, desafiava a tirania de meu pai. Escondia as marcas da opressão com seus xales e seu pó-de-arroz, mas eu sempre soube o que se passava. Ela teria apreciado isto – o mar.</p>
<p>O mesmo não pode ser dito minha falecida esposa. Incomodava-lhe tanto vento e tanta umidade; tanta areia encontrando caminhos para dentro de casa e acumulando-se nos cantos mais sórdidos e impossíveis de se limpar. Trouxe-a aqui apenas três vezes antes que reconhecesse a causa perdida. Passei a vir para o litoral sozinho e apenas quando era necessário que eu tratasse de negócios. Lavinia ficava em Londres, e ouso pensar que ela apreciava ser deixada um pouco em paz, preparando o enxoval para um filho que nunca chegamos a ter.</p>
<p>Que grande decepção devo ter sido para ela. Eu, que tinha interesses menos sólidos – mais simples e efêmeros – do que ela teria esperado de um homem de meu porte. Eu, que embora desejasse casar, protelasse constituir família enquanto ainda houvesse coisas no mundo as quais me interessassem ver. E que grande decepção foi ela para mim, por motivos diametralmente opostos.</p>
<p>No fim, fingimos nos amar. Segurava-lhe a mão fingindo, também, segurança, enquanto dizia-lhe que tudo ficaria bem. Uma doença estúpida a levou, roubando-lhe as possibilidades, o futuro. Pobre Lavinia. Que agradável criatura ela era. Teríamos sido bons amigos caso não tivéssemos concordado em cometer o mesmo erro, que pareceu-me tão certo à época.</p>
<p>Guardo o buquê de nosso casamento em uma redoma sobre o console da lareira desta casa, da qual ela tanto desgostava. Vendi, pois, a nossa. Abdiquei de residências fixas desde então, e hoje hospedo-me em hotéis quando não estou aqui. Vejo as rosas secas, que após quinze anos ainda trazem um pouco do antigo pigmento, tal qual a memória de Lavinia em minha mente.</p>
<p>Não sei se, quando me lembro dela, é de fato o seu rosto que vejo. Parece-me, às vezes, que lhe acrescentei certas características e suprimi-lhe alguns defeitos. Vejo seus olhos castanhos mais profundos do que deveriam ter realmente sido; vejo seus cabelos mais brilhantes do que é possível que fossem – acredito ter retornado àquela mesma situação de engano na qual me encontrava quando a pedi em casamento: projetando nela o que eu gostaria que ela fosse. Por vezes escapa-me quem Lavinia foi de fato, então leio as cartas que trocamos naqueles tempos e honro-lhe a memória com a devida precisão. É o mínimo que posso fazer.</p>
<p>Pesares à parte, enviuvar é um perfeito atestado de liberdade. Tendo ingressado no matrimônio – ainda que este tenha sido miseravelmente falho – rompe-se com este dogma edificador da vida privada. Um a menos. Por dez anos, alicercei-me nesta despreocupação. Por este dez anos, acreditei que jamais voltaria a contemplar casar-me outra vez. Quando o fiz, foi certamente um mau presságio.</p></blockquote>
<p>Continuação do trecho publicado no blog <a href="http://blogjuntandoletras.blogspot.com/2011/11/teste.html">Juntando Letras</a>. Sei que meu fiel secto já deve ter lido, mas resolvi lançar uma série por aqui. &#8220;Slice of Life&#8221; será constituída de estudos de personagem em primeira pessoa. É, eu preciso me sentir escrevendo alguma coisa. :P</p>
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